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Livro de Alejandro Spangenberg - Gestalt Terapia - um caminho de volta para casa
Apresentação à edição brasileira


Ao me deparar com a incumbência de apresentar a obra Gestalt Terapia – um caminho de volta para casa ao público brasileiro, fico um tempo, paralisada diante de uma enxurrada de sentimentos e idéias que competem entre si, pois de igual valor e consistência. Apresento primeiro, com alegria incontida, com orgulho expresso, o autor com o qual me identifico, o homem de caráter que admiro, o professor e supervisor de nossos Cursos de Formação em Gestalt Terapia do nosso Instituto de Psicologia, o amigo afetuoso ou conduzo o leitor à obra com comedimento e parcimônia nos adjetivos para que não fique tão escancarada a emoção ingente?
Decido sartreanamente por me dedicar à tarefa sem declinar dos sentimentos e decido fazê-lo no mais genuíno de mim e da Gestalt: na primeira pessoa do singular, quando preciso, subvertendo toda minha formação acadêmica anterior.
Como boa obra, este livro já me enlaça pelo título. É como um convite para que o leitor adentre em seus mistérios com a tensão devida, pé ante pé, circunspecto, todo olhos e ouvidos, querendo saborear visceralmente cada ínfimo detalhe de um fonema, sem perder a sonoridade do conjunto, a sinfonia do sentido – porque vivenciado, teleologicamente orientado.
Gestalt Terapia – um caminho de volta para casa – a metáfora abrangente me incita à reflexão. Questiono-me a respeito da “casa” e do “caminho” em dois âmbitos: primeiro em relação a nós, gestaltistas, e o segundo em relação a nós – numa compreensão ontológica: como pessoas, seres humanos, humanidade.
Para os gestaltistas, quiçá pudessem ser questões pertinentes: temos introjetada a imagem de uma casa ideogênica devidamente circunscrita? Se o temos, que elementos fundantes são imprescindíveis para que possamos ainda vê-la, com o decorrer do tempo, como um referencial? Quando nos achegamos bem de perto e esquadrinhamos suas partes, quais nos chamam a atenção? Somos capturados por alguma delas ou nos afastamos um pouco mais para vê-la resplandecer no seu todo, e assim, com sua imagem captada, escolhemos, tranqüilos, por um caminho porque sabemos que a levaremos conosco por onde quer que possamos ir? Há ainda, é claro, a possibilidade de o aprendiz incauto ou o mestre presunçoso ficar aferrado a uma parte na ilusão de ter tocado o todo.
E sobre os caminhos os quais temos percorrido ou os quais temos construído sob a flâmula humanista-existencial da Gestalt Terapia? Eles nos afastam da casa-mãe norteadora a ponto de podermos ousar palmilhar o mundo com o olhar inquiridor e criativo da criança ou permanecemos restritos, obcecados, empedernidos, repetitivos, caseiros, dando voltas no quintal da casa teórica, não experimentando um passo para além dos clichês conceituais de base?
Se ampliarmos estas questões e as utilizarmos a nós como pessoas e quisermos tocar toda a amplitude de nossa existência nos vários papéis que assumimos em todos os sistemas pelos quais transitamos, então teremos um espectro bem maior para nossa reflexão. Se decidirmos ir além e focarmos nossa existência singular como representante legítimo da humanidade, então teremos que adentrar na dimensão do mistério da vida e da morte, no âmbito de nossas essências, as mais indizíveis, as mais transcendentais.
Foi com este estado de espírito que me lancei à leitura desta obra. Convido o leitor a fazê-lo do seu jeito e a me permitir uma digressão.
Laura Perls nos legou uma postura “libertária” ao afirmar que existiriam tantas Gestalten quantos fossem os Gestalt Terapeutas e isto fica muito claro, quando assistimos aos trabalhos teóricos apresentados nos Congressos ou lemos as últimas publicações nacionais ou internacionais ou participamos de trabalhos vivenciais os mais diversos. Há uma riqueza de matizes que dificilmente percebemos em outras abordagens; matizes permitidos? Fica aqui para a reflexão, lembrando que foi a própria Laura que nos advertiu no texto “Entendidos e Malentendidos em Gestalt Terapia”, tradução de Therese A. Tellegen, de que Gestalt não é simplesmente uma junção aleatória de técnicas ou uma técnica específica e quem assim o pensar deve estar entendendo mal seus conceitos.
Por outro lado, parece que muitos de nós gestaltistas esquecemos que a nossa “casa teórica” já nasceu múltipla e propensa a reformas desde sempre. Nossa genealogia foi exemplarmente mostrada na obra “Gestalt – Uma Terapia do Contato” (1995), de Serge e Anne Ginger. Portanto, não há como pretender uniformidade em “casa” onde tantos “mandam”, onde o “pai” Perls, nômade por natureza em espaços geográficos e, na mesma medida, em territórios teóricos, deixava as “várias casas” que erguia aos cuidados de outros ou da esposa, esta sim: organizada, zelosa e orientadora.
Colocada esta base histórica, envolvo-me novamente em questionamentos sobre o “quadro de referência” de nossos primeiros teóricos, suas vidas, sua “visão de homem e de mundo”, os paradigmas vigentes, a efervescência de idéias e produções as mais antagônicas e ou complementares e busco parear o “Zeitgeist” da época e o de hoje. Tal tarefa, que sempre me pareceu inglória demais, complexa e extenuante, forma o conjunto de temas de abertura da obra de Alejandro Spangenberg.
Qualquer gestaltista que tenha lido Zinker o suficiente vai reconhecer na obra de Alejandro a marca da Gestalt “coração” da Escola de Cleveland. Além desta característica marcante, sua obra se constrói como uma reflexão profunda, permeando conceito a conceito de uma forma fluida, sem sobressaltos. Percebe-se através da leitura, a personalidade do autor que expõe suas idéias de uma forma tranqüila, como um verdadeiro mestre a conduzir seus discípulos pelos meandros do pensamento.
Este livro nos faz rever várias formulações epistemológicas da Gestalt Terapia, fazendo cair por terra uma pretensa unidade entre todas as linhas de pensamento, ao mesmo tempo em que não invalida as contribuições teóricas a que lançaram mão Perls, Goodman e Hefferline.
Que tipo de leitor usufruirá mais desta obra? O próprio autor diz que ela se destina tanto a profissionais e estudantes quanto a “pessoas que tenham interesse em aprofundar-se no mistério e no sentido da vida”.
Desejo a todos uma boa leitura e que possamos todos conhecer e fazer da Gestalt – um caminho de volta para casa.
Maria Aparecida de Freitas Romais
Agosto de 2006

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O evento aconteceu no dia 8 de novembro, na sede do Instituto. As alunas apresentaram suas monografias e receberam os certificados de Conclusão do Curso.

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