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A POLARIDADE SAUDÁVEL DO PROCESSO DO ADOECER
Fabíola Mansur Polito Gaspar
INTRODUÇÃO

No ano de 1992, na cidade de Juiz de Fora, interior de Minas Gerais, ingresso na Faculdade de Psicologia do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. O interesse por tal área nasceu bem antes do próprio vestibular e foi se enraizando e tomando maior consistência no decorrer dos estudos.

No segundo semestre do primeiro ano de curso, comecei a participar de pequenos fóruns de Gestalt-Terapia, cuja motivação me proporcionou realizar, posteriormente, o primeiro Curso de Formação em Gestalt-Terapia, contando com aspectos teórico-clínicos, complementados com uma terapia em grupo. Na verdade, esta abordagem chamava a atenção pela sua visão humanista do homem, em constante integração com o meio ambiente, sem restringi-lo ao individual, ao próprio "locus" terapêutico. O que mais permeava a curiosidade e o desejo de aprofundamento nesta linha de trabalho era a possibilidade de privilegiar o significado único e concreto da experiência de cada um. Neste sentido, a abertura para um novo caminho pessoal e profissional foi sustentado e transformado por esta configuração viva, dinâmica e processual da Gestalt-Terapia.

Enquanto graduanda, tive o privilégio de realizar um dos estágios dos quais considero de maior importância pelo aprendizado, empenho e interesse pela área foi o do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora. Neste, prestei serviços no setor da Clínica Médica e Pediatria.

Ao terminar a faculdade, em dezembro de 1996, meu propósito de dar continuidade ao estudo da Gestalt-Terapia se tornou mais forte, motivando a ida para a cidade de São Paulo, a fim de realizar o Curso de Especialização no Instituto Sedes Sapientiae. Confirmando a tendência e o interesse pela área hospitalar, fui aprovada no concurso público do Hospital de Servidor Público Estadual - SP. Nesta instituição, atendia pacientes de todas as idades, em terapia e psicodiagnóstico e, por outro lado, pacientes com os mais variados tipos de
doenças, a partir dos pedidos de interconsultas.

Em razão de contar com um grande número de atendimentos a pacientes terminais, algumas questões foram causando um desconforto, um incômodo, culminando com o desejo de não se estagnar frente o vazio, o sofrimento humanos decorrentes do adoecimento. Pessoal e profissionalmente, havia uma forte impressão de que, muito mais do que escutar o paciente e tratá-lo emocional e sintomaticamente, era possível levá-lo a descobrir o que sua enfermidade significava, sem nos acomodarmos e fecharmos os sentidos para tal fenômeno. Daí, uma grande motivação para reflexão: como enxergar o adoecimento como uma experiência de transformação ao próprio indivíduo? O que se pode fazer para resgatar com estes sujeitos as suas potencialidades, mesmo em situações de gravidade extrema? Como favorecer que o paciente, principalmente o hospitalizado, reencontre um sentido para sua vida, mediante a peculiaridade de seu diagnóstico?

A partir destes questionamentos é que a escolha da abordagem gestáltica toma lugar, uma vez que ela permite "tocar" o ser humano, fundamentada num diálogo sensível, cuja pretensão não é, absolutamente, fragmentá-lo em patologias, mas sim, estar a serviço dos recursos que ainda são possíveis de se resgatar.

Neste sentido, tal trabalho não tem a intenção de ser romântico ou recheado de esperanças irreais, vazias e de um otimismo ilusório. Muito pelo contrário, objetiva, a partir da experiência em um hospital geral, sugerir a possibilidade de oferecer ao paciente uma nova visão do processo do adoecer, aparentemente desintegrador, percebendo-o, outrossim, como uma vivência transformadora. Pode-se ainda dizer que este estudo é também um "grito de alerta", como uma espécie de convocação a todos os profissionais da saúde, principalmente psicólogos, para que reflitam sobre sua real postura de agentes ativos dentro do contexto hospitalar, no sentido de reverter o significado restrito e precário que se vem dando ao adoecimento.

Justifica-se também embasar este estudo com a teoria da Gestalt-Terapia, uma vez que esta abordagem se fundamenta no existencialismo e na fenomenologia, enfatizando profundamente a potencialidade humana, mesmo em situações de grave acometimento. A compreensão do homem a partir de sua existência, subjetividade e potencial de constante crescimento e auto-regulação, favorece a abertura para conceber o adoecer como uma etapa de ajustamento criativo disfuncional, capaz de, muitas vezes, salvaguardar o indivíduo da insuportabilidade de determinadas experiências.

Um outro objetivo que este estudo vem propiciar é o incremento das produções gestálticas na área da saúde. A bibliografia neste contexto hospitalar é restrita, sem oportunidade de mostrar o que se pode realizar na prática do atendimento, principalmente com pacientes no leito. Aproveitando a leitura da Gestalt-Terapia, deseja-se enfatizar que o estar doente, como a própria expressão indica, visa um estado, um processo e, não, algo estático, sintomático e sem perspectiva de transformação. O grande desafio é justamente ampliar este invólucro de idéias limitadas. Embutida na patologia pode estar uma tensão emocional que, se não cuidada, permite a supressão dos recursos próprios do indivíduo, tornando-o "cego" às suas potencialidades e auto-suporte. Se pudermos fazer uma analogia, uma semente precisa apodrecer
e se desfazer, a fim de que dê frutos.

Caso isto não ocorra, ela perde a sua função. Assim também é o adoecer humano: se um estado de debilitação não puder ser reconfigurado e reconhecido como um percurso de crescimento, o homem fica desacreditado de si, fechando suas fronteiras de contato, numa restrição e paralisação, muitas vezes, fatais. Faz-se então urgente modificar o foco de apreensão deste processo, decodificando a serviço do que ou de quem este ajustamento disfuncional está tomando passagem. Para tanto, a instrumentalização gestáltica se mostra
eficaz, em sua abordagem prática e teórica, ao se aventurar a percorrer sempre o limite daquilo que, em nenhum instante, o homem perdeu: sua liberdade de ser!

Desenvolvimento

"Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento (...)
Tempo para nascer, e tempo para morrer;
Tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado;
Tempo para matar, e tempo para sarar;
Tempo para demolir, e tempo para construir;
Tempo para chorar, e tempo para rir;
Tempo para gemer, e tempo para dançar;
Tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las;
Tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se;
Tempo para procurar, e tempo para ceder;
Tempo para guardar, e tempo para jogar fora;
Tempo para rasgar, e tempo para costurar;
Tempo para calar, e tempo para falar;
Tempo para amar, e tempo para odiar;
Tempo para a guerra, e tempo para a paz".

A cronicidade de insatisfações, frustrações e sofrimento pelos quais vem passando a sociedade como um todo tem impedido que o "tempo de construir, o tempo de nascer e também de sarar" sejam vivenciados de forma satisfatória. Por esta razão, a manutenção do isolamento pessoal e social, a obstrução da rede de inúmeras relações possíveis entre os indivíduos e, consequentemente, a restrição da expressão e disponibilidade de experimentar os conflitos de maneira a retirar destas vivências um fio de crescimento e nutrição ao próprio organismo têm perdido espaço assustadoramente.

Em instituições hospitalares nas quais ingressei, em particular, estas questões ficam mais presentes, uma vez que a constante relação com o adoecer restringe a viabilidade de uma visão mais dinâmica do mesmo, condicionando tal processo a uma polaridade exclusivamente de desorganização e desequilíbrio bio-psico-físico.

A partir daí, revela-se a importância de resignificar estes olhares e comportamentos à luz da Gestalt-Terapia, enfatizando que o processo do adoecer deve ser visto como uma experiência peculiar do indivíduo e, segundo o existencialismo, repleta de liberdade, ou seja, "a capacidade do indivíduo de decidir sobre sua vida escolhendo-a e por ela se responsabilizando" (PENHA, J., 1983, p.65).

Ampliando as Fronteiras na Instituição Hospitalar

Durante muito tempo, o hospital era visto unicamente como um lugar onde se priorizava a gravidade dos casos e o contato incessante com a morte. Sua marca era a eterna luta entre a vida e a morte, culminando no aprisionamento da esperança e da "cura". Os significados relevantes que as doenças iam ganhando, deixavam o homem no anonimato de suas potencialidades. Aliás, o que é isto? Será possível falar de potencialidades humanas, de aspectosaudável no processo de adoecimento em plena instituição hospitalar?

Este é um desafio que começa aqui e que prima por reconhecer que o grande engano do sistema de saúde é acreditar que seus profissionais detêm o saber sobre o outro - paciente. Muito pelo contrário, torna-se urgente apontar que "esta verdade a priori" apaga a capacidade intrínseca do sujeito doente de validar o conhecimento que tem de si mesmo e até de propor o que ele precisa, auxiliando o manejo de seu tratamento.

Entretanto, na maioria das vezes, a atitude do profissional frente o paciente varia de acordo com sua visão de homem e com todo o aparato filosófico imbuído nesta mesma concepção. Consequentemente, há uma interferência na forma como esta relação vai se configurar. O que se pretende revelar com isto é que o ranço da dicotomia entre mente - corpo, físico - psíquico, pensamento - sensação, ainda estão presentes na prática cotidiana de alguns profissionais da saúde, perfazendo a visão mecanicista de homem. E, na minha prática, pude observar a dificuldade em resgatar do mecanicismo sua utilidade ao tratamento das doenças e, ao mesmo tempo, relacionar esta visão com outras alternativas de cunho mais humanizado, não se prendendo excessivamente a generalizações, mas percorrendo e validando singularidades.

O importante a se perceber de tudo isto é que, em inúmeros momentos do movimento médico-científico, o mecanicismo foi extremamente profícuo, tendo fundamentado os meios necessários para o avanço e a expansão de propriedades e métodos de "cura" para os doenças em geral. Este avanço é imprescindível sim, mas acabou contribuindo para a dicotomização do indivíduo e, muitas vezes, deixou, paradoxalmente, a pessoa, sua humanidade e história, à margem de todo o tratamento.

Por outro lado, pode acontecer o perigo de se cair no extremo oposto; ou seja, naquele onde há uma tal "psicologização" do adoecer e uma
categorização emocional das somatizações, que mais uma dicotomia se manifesta. E, em conseqüência, o humano continua sendo distorcido em sua totalidade. Por esta razão é que, neste trabalho, pretendo apresentar a visão fenomenológico-existencial, como uma das alternativas possíveis de abarcar o homem e seu adoecimento, privilegiando a integração de partes, até então vistas como fragmentadas e de escassa potencialidade. Nesta visão, a patologia precisa ser explorada sim, e até medicalizada; mas dentro de um contexto; como um processo que, neste momento, vem bloquear a expressão e percepção do indivíduo em sua forma mais produtiva. E é por este motivo que
se faz necessária uma ampliação das maneiras de abarcar o adoecer, na medida em que é fundamental delegar ao próprio sujeito hospitalizado os poderes de buscar um sentido para sua vida; de reconfigurar sua existência.

É neste aspecto que se fundamenta a conceituação de saúde para os fenomenólogos e existencialistas: é a capacidade de "... estabelecer articulações eficientes entre a amplitude e as restrições de nosso existir" (FORGHIERI, 1993, p. 53), uma vez que participamos ativamente deste processo de crescimento. E, aos olhos dos profissionais, isto só será possível quando o todo não for ignorado. Ou seja, se os procedimentos médicos e psicológicos se restringirem às partes - um órgão, um membro, uma dor - a integração das diferenças individuais estará longe de ser alcançada e, por conseguinte, o processo de adoecimento não poderá ser visto como "um período de ativo
crescimento e vir-a-ser" (LESHAN, 1992, p. 149).

Em contrapartida, é extremamente producente ressaltar que a proposta de uma atitude mais humanizada por parte dos profissionais de saúde não significa igualá-los em um só tipo de função. Ou seja, ser humano não implica em exclusivamente ouvir o paciente. Não há como exigir que médicos cirurgiões, por exemplo, fiquem escutando as questões existenciais dos pacientes. Por outro lado, sua humanidade pode se fazer presente ao não esquecer uma agulha no interior do corpo daquele a quem operou.

Um enfermeiro, por sua vez, também estará tendo uma atitude amorosa e humanizada, na medida em que atentar para como está o soro ou um curativo que está vazando, ao invés de, unicamente, preocupar-se com os sonhos, medos e expectativas daqueles dos quais cuida. Torna-se claro que é muito tênue a linha que separa as atitudes de cada profissional da área de saúde. Mas, o importante é que cada um reconheça seus limites e capacidades no lidar com o outro, dentro das condições de sua especialidade e levando em conta sua singularidade enquanto pessoa.

Para alcançar este novo olhar e esta nova atitude frente o adoecer, é imprescindível que se reavalie e se reconceitue a própria doença. Esta pode ser entendida como uma parte estruturante da existência. E isto significa que a doença também pode ser vista como "... um fenômeno do cotidiano" (KOVÁCS, 1992: 144), prescindindo de uma singularização, cujos contextos não se fundamentem em polaridades fragmentadas, mas em polaridades que se complementem, a fim de estarem a serviço da própria "cura", na medida em que assumirem um sentido que esteja a serviço do próprio doente em si. Perceber o processo de adoecimento como uma polaridade do estado saudável é uma novidade, talvez pouco fundamentada até então.

Morte e Doença: Configurações de um Processo

'Houve um tempo em que nosso poder perante a Morte era muito pequeno. E, por isso, os homens e as mulheres dedicavam-se a ouvir a sua voz e podiam tornar-se sábios na arte de viver. Hoje, nosso poder aumentou, a Morte foi definida como inimiga a ser derrotada, fomos possuídos pela fantasia onipotente de nos livrarmos de seu toque. Com isso, nós nos tornarmos surdos às lições que ela pode nos ensinar. E nos encontramos diante do perigo de que, quanto mais poderosos formos perante ela (inutilmente, porque só podemos adiar...), mais tolos nos tornamos na arte de viver. E quando isto acontece, a Morte que poderia ser conselheira sábia transforma-se em inimiga que nos devora por detrás. Acho que para recuperar um pouco da sabedoria de viver seria preciso que nos tornássemos discípulos e não inimigos da Morte.

Mas, para isso, seria preciso abrir espaços em nossas vidas para ouvir a sua voz...' (Rubem Alves, 1996, p. 73). Há algumas décadas atrás, a morte era aceita como parte do desenvolvimento humano, onde os corpos eram capazes de "...fertilizar a terra, acelerando o crescimento das plantas, sendo fonte de vida" (KOVÁCS, 1992: 47). Por outro lado, nesta mesma época, o sacrifício de um animal e posterior ingestão do seu sangue guardava a idéia de incorporação dos elementos vitais do morto.

Assim, ao reconhecer a possibilidade da morte, ou seja, a íntima relação que nutre e mantém com a vida, o que nos impede de realizar o mesmo com o processo do adoecer? Mediante a observação de que o adoecimento sinaliza e carrega consigo uma estreita proximidade em relação à finitude, faz-se importante desmistificar a estranheza com que tal relação parece vir sendo cristalizada. Isto em razão de que, muito freqüentemente, constrói-se um aparato de causa e efeito para tentar explicar imediata e racionalmente a correlação que adoecer e
morte provocam.

A morte, por sua vez, é um fenômeno com o qual cada ser humano se defronta dia-a-dia; entretanto, busca-se incessantemente postergá-la e impedir sua visita até em pensamento, numa crença de que a própria finitude está longe, e ainda de que a morte traz a sensação de anonimato, não podendo ou não sabendo fazer dela sinônimo do ápice de uma construção de vida. Neste sentido, é preciso trabalhar por uma conscientização que volte o olhar para a possibilidade de tornar a morte singular, batizada pela história de vida de cada um, contando com experiências particulares e significativas. E ainda procurar colher dela um fio salutar de transformação e crescimento pessoal, podendo ser ampliado para o cultural.

Uma expressão de HELOÍSA CHIATTONE (s/d, p.59) traduz belamente esta concepção: "aquele que não 'morre' várias vezes, não 'nasce'. Por isso, onde não há morte, não há vida pois a morte dá sentido à vida. Então, o indivíduo que nega a morte, não é criativo e 'vivo'. A negação da morte leva o indivíduo à auto-alienação, a um estado de incompletamento pois não pode compreender-se integralmente..." E esta morte da qual se fala não é a morte literal, obviamente, mas carrega um sentido filosófico de que se tem a liberdade de matar tudo aquilo que intoxica, que aliena. Mas somente na medida em que este "lixo" for integrado, digerido e nutritivamente assimilado à totalidade do morrer, poderá então, renascer.

Esta idéia é fundamental, pois, muitas vezes, experiências podem ser permeadas de tentativas de se "matar" aspectos aparentemente tóxicos de si mesmo, sem avaliar que este tóxico, ao ganhar uma nova configuração, pode se transformar em um produto extremamente nutritivo. Esta é a chave para a compreensão da polaridade saudável do adoecer e, consequentemente, da morte. Infelizmente, a historicidade da cultura ocidental aponta para uma dificuldade em integrar a mortalidade a um renascimento, o que a deixa "manca" diante da riqueza que o contato com a morte no aqui-e-agora poderia oferecer. Isto significa incluir a noção de morte como um fenômeno existencial, onde sua percepção no agora é simultânea ao contato com a vida, na medida em que a cada ciclo vital, uma gestalt se abre para dar lugar a outra que pede por satisfação. Existencialmente, estes ciclos impulsionam o homem ao crescimento, via experiência.

Neste sentido, é que o trabalho gestáltico pretende, aqui, propor-se ao resgate da consciência da morte e do adoecer no aqui-e-agora, considerando sua direta ligação com o ajustamento criativo e com o funcionamento saudável do organismo.



Gestalt-Terapia: As polaridades do Processo do Adoecer

Não há como pensar no adoecer em Gestalt-Terapia sem relacionar este processo com a saúde, pois um dos fundamentos básicos desta abordagem é justamente o pensamento holístico. Mediante tal concepção, não há como ocupar-se daquele processo, do paciente e do profissional que o acompanha fora de um contexto que LATNER denominou de "campo integrado" (1987, p.02). De acordo com a conceituação gestáltica do adoecer, é importante acrescentar que esta abordagem imprime constantemente uma visão processual de todas as circunstâncias vivenciadas pelo homem.

E este processo em si corresponde a um interminável fluir de formação e destruição de figuras, ora experimentando a assimilação, ora a alienação daquilo que entrar em contato, na fronteira. A partir desta crença, "... o contato tem de ser uma transformação criativa. Por outro lado, a criatividade que não está continuamente destruindo e assimilando um ambiente dado na percepção, e resistindo à manipulação, é inútil para o organismo e permanece superficial, faltando-lhe energia..." (PERLS, 1997, p. 211). Desta forma, ao buscar fundamentar a polaridade saudável do processo de adoecimento, é essencial não perder de vista que tal funcionalidade só será criativa, na medida em que houver assimilação e crescimento.

Na linha desta polarização do adoecer, há um exemplo bastante ilustrativo em que a palavra grega "pharmakon significa veneno e também remédio" (DETHLEFSEN, 1997, p. 25). Dentro desta configuração o adoecimento pode ser tanto um veneno quanto um remédio para o homem, dependendo de como este experienciar tal processo. Caso não fique cristalizado apenas em uma das polaridades mas, ao contrário, permita-se verter por quaisquer uma delas, obterá uma visão e uma postura completamente diferentes diante de seus sintomas, sofrimento e estados psíquico e clínico em geral.

Segundo DETHLEFSEN e DAHLKE (1997, p. 25), "a polaridade é como uma porta em que num dos lados está escrito Entrada, e no outro Saída. Continua sendo a mesma porta mas, dependendo do lado pelo qual nos aproximamos dela, vemos apenas um de seus aspectos". Fazendo uma analogia com o processo do adoecer, pode-se dizer que, se este for encarado exclusivamente como instrumento disfuncional e estereotipado, a face de sua totalidade criativa inerente à existência ficará oculta aos olhos cegos dos profissionais e seus doentes que não se dispuserem a visitar o outro lado da porta. O mesmo pode acontecer com relação à morte: "a morte pertence à vida, como pertence o nascimento. O caminhar tanto está em levantar o pé, como em pousá-lo no chão" (TAGORE - Pássaros Errantes, CCXVII).

É fundamental ressaltar que, deste outro lado, pode não estar a "cura" entendida como a vitória sobre os sintomas, a saúde. Mas, mais importante que isto, pode estar o amadurecimento, a transformação, a transmutação do adoecimento e o conseqüente contato com os recursos pessoais. Aqui se encontra a grande diferença entre "...lutar contra a doença e transmutá-la. A cura acontece exclusivamente pela transmutação da doença e nunca pela vitória sobre um sintoma, pois a cura pressupõe a compreensão de que o ser humano se tornou mais sadio, ou seja, um todo se tornou mais perfeito" (idem, p.18).

Na linguagem gestáltica, esta transmutação pode também ser correlacionada à expansão da "awareness" e do contato entre o indivíduo, seu ambiente e seu adoecimento, pressupondo que o alcance do estado saudável implica a mobilização de energia para satisfazer uma "necessidade-figura" e a conseqüente troca intersubjetiva no campo vivencial, a fim de ampliar o potencial de ação do indivíduo em seu diálogo consigo e com o meio.

Assim, quando os pacientes ousarem lançar mão de seus próprios recursos (que pode ser a partir, ou não, do suporte proveniente dos atendimentos terapêuticos), o adoecer ganhará um sentido de movimento, de expansão para um contato funcional e dinâmico, num encontro que, provavelmente, possa vislumbrar um propósito de vida e uma abertura de possibilidades. Eis aqui uma outra diferença entre lutar contra tal processo, extirpar os sintomas e, resignificá-los em prol de um funcionamento saudável!

"A doença precisa ser vista como a 'abertura para novas possibilidades existenciais a partir do confronto com determinados impedimentos'..." (REHFELD, 1991, p. 28-29). Se o indivíduo não se permite mergulhar no próprio adoecimento e perceber o que ele quer dizer, ou como vem fazendo parte de sua vida, dificilmente poderá experimentar-se são. A exploração de si mesmo, o confronto com toda a gama de bloqueios e cristalizações que participam do contato e da relação sujeito-ambiente deve surgir como um processo ativo e delineador de uma conscientização fluida, inteira da totalidade fenomenológico-existencial.

E este mergulho implica também em reconhecer-se frágil, portador de limites próprios; fruto de experiências "deformadas" na interação com o meio. Significa ainda admitir que, inúmeras vezes, o que fez parte do desenvolvimento pessoal foi uma sucessão de desconfirmações, desvalorizações e insatisfações que culminaram numa opressão das habilidades em transformar o disfuncional em funcional. O adoecer vem espelhar uma das facetas deste limiar entre a dor e a realidade da condição humana.

Retomando e melhor refletindo sobre o funcionamento saudável, em Gestalt-Terapia, este se refere ao "fluxo contínuo e energizado de awareness e formação perceptual de figura-fundo, onde através de fronteiras permeáveis e flexíveis, o indivíduo interage criativamente com seu meio ambiente, desenvolvendo recursos novos para responder às dominâncias que se afigurem e usando funções de contato para poder avaliar e apropriadamente estabelecer contatos enriquecedores e interrompê-los quando tóxicos e intoleráveis" (CIORNAI, 1995, p. 74).

Ao contrário, o funcionamento não saudável se caracteriza "por interrupções, inibições e obstruções destes processos, com a conseqüente formação de figuras fracas, desvitalizadas, mal definidas, nebulosas, confusas à percepção, que ao não se completarem vão dificultando progressivamente as possibilidades de contatos criativos, vitalizados e vitalizantes com o presente" (idem, ibidem, p.74).

Muitas vezes, mediante o primeiro impacto de um diagnóstico ou de uma hospitalização, o indivíduo pode carecer tanto desta fluidez, que acaba perdendo o contato com seu querer e se distanciando de si mesmo (RIBEIRO, 1998). Com a interrupção e a inibição do processo criativo, há uma irrupção de sintomas que deixam o corpo como figura, enquanto os recursos se tornam nebulosos e enfraquecidos psico-energeticamente.

O que venho observando na prática hospitalar é que, no momento da notícia diagnóstica por exemplo, é como se houvesse uma espécie de avalanche de toxinas e lixos existenciais que cegam, enfraquecem e alienam quaisquer produtos nutritivos que pudessem conduzir a um contato mais eficaz com a polaridade saudável do adoecer. E, na grande maioria, são estas toxinas que obstruem o fluir do processo de crescimento, tornando turva qualquer tentativa de identificação da figura dominante, o que, consequentemente, afasta articulações que ativem recursos e potencialidades.

É neste instante que a sintomatologia agride com força total, pois, de acordo com FRAZÃO (ano, p.09), a compreensão de "sintoma é que quando um afeto, ou necessidade, não pode se realizar, a Gestalt fica incompleta, causando sofrimento e angústia. Com vistas a tornar estes sentimentos suportáveis, a configuração original se deforma em busca de fechamento.

Cria-se assim uma nova forma, que na realidade é uma deformação" (Texto: 20 anos de Gestalt-Terapia: caminhos e caminhadas). Esta "deformação" pode ser entendida como cristalizações que vão se solidificando e impedindo que o sujeito disponha livremente de movimento e ação perante suas potencialidades. Assim, se a Gestalt constata que a patologia é "produto de relações (...), em resposta a contextos específicos" (RIBEIRO, 1998, p. 71), a busca da "cura" e da awareness "pressupõe uma força integrativa para o cliente, no sentido de não permitir que ele se coloque na posição de que 'façam por ele'; ele deve ultrapassar o nível passivo do 'ser doente', passando a se perceber como participante ativo..." (SOUTO, 1995, p. 47), deste processo de adoecimento.

O estado de adoecimento, assim, pode se revelar como fruto de relações cristalizadas, ausência de autoconfiança e auto-estima. Entretanto, é fundamental que o paciente hospitalizado seja visto como portador de uma história pessoal que antecede a própria internação. E, por esta razão, este estado de crise deve ser compreendido compreendido a partir de todos os comportamentos e crenças que a história daquele paciente refletir. Este lembrete se deve ao fato de que possíveis modificações decorrentes do adoecer, como a restrição no grau de investimento energético frente as atividades até então desenvolvidas pelo paciente, pedem uma escuta mais apurada e cuidadosa. E esta escuta se dará certamente na fronteira de contato entre o terapeuta e o paciente, presumindo de uma gradual retomada da fluidez entre o indivíduo e seu meio, acrescida da disponibilidade de tornar a crise uma oportunidade, gerando um sentido novo para o adoecimento.

Este é um trabalho árduo para o terapeuta, uma vez que o paciente costuma depositar naquele a autonomia e sabedoria de seu estado, culminando por abortar uma via de diálogo produtivo ao seu desenvolvimento saudável.


A Relação Terapêutica: QUEM "CURA" QUEM?

"...Como cuidadores, somos atingidos por aqueles de quem cuidamos..." (BROMBERG, 1996, p.62). Curamo-nos a nós mesmos e uns aos outros. Neste aspecto, a função primordial do terapeuta é justamente a de facilitar o resgate daquilo que ainda está vivo no paciente, encorajando-o a vivenciar a amplitude de forças internas que lhe pertencem.
Por outro lado, não se pode perder de vista que, "às vezes, as pressões e cargas negativas do meio são tão fortes que a pessoa desenvolve defesas que terminam por limitá-la em sua existência" (CIORNAI, 1995, p. 73). E não é, absolutamente, função do terapeuta, retirar esta "armadura defensiva", "o chão" do paciente, ou tentar, mecanicista e insistentemente, enfatizar a importância da "awareness" e do contato. Ao contrário, o terapeuta precisa atentar para o quão "deformada" está a relação do paciente consigo mesmo e seu meio, percebendo suas dificuldades, seu sofrimento e fragilidade, sem precipitar qualquer tipo de mobilização que possa "atropelar" a experiência do mesmo.

Vale ressaltar que a própria "presença" já sensibiliza uma perspectiva de awareness e crescimento para o indivíduo. E, no contexto da relação terapêutica, é fundamental que "o fazer, o resolver, o salvar e curar" (RIBEIRO, 1998, p.52) por parte do terapeuta não esvaziem a sabedoria da fluidez relacional do processo. Priorizar, ilusoriamente, uma "cura imediata" pode ofuscar a hábil e criativa oportunidade de o terapeuta "se encontrar" com seu cliente, interessando-se por seu mundo, sua história.

A isto, a Gestalt-Terapia denomina de atitude terapêutica que, nada mais é do que uma atitude amorosa, onde "o terapeuta (...) não só funciona como 'espelho' dos aspectos conflitantes ou destrutivos do cliente. Obviamente reflete suas capacidades e potencialidades, seus aspectos construtivos, belos e únicos..." (CARDELLA, 1994, p.64).

Interessa então a todos nós, terapeutas, realizarmos uma revisão dos próprios conceitos frente a vida e a morte, a saúde e o adoecer, dentro do processo terapêutico, a fim de que nossa atitude preponderante inclua uma forma mais humanizada perante o paciente e, não uma atenção voltada para o sentido de "...fracasso, frustração, impotência..." (ANGERAMI, 1996, p.136).

E a abertura de espaço para o dividir-se e o renovar-se contém o desafio maior da relação terapêutica em Gestalt-Terapia, na medida em que é, nesta possibilidade, que o indivíduo vai tateando e experimentando o que lhe é nutritivo e tóxico. Colocar-se presente e estar a serviço deste processo de construção dialógica com o paciente é dispor-se a uma atitude amorosa, cuja tarefa é propiciar a ampliação do campo afetivo-vivencial deste indivíduo em relação.

UM ENCONTRO ENTRE PERLS E KLÜBER-ROSS

"Custaria tão pouco lembrar-se de que o doente também tem sentimentos, desejos, opiniões e, acima de tudo, o direito de ser ouvido" (KLÜBER-ROSS, 1996:20). Tomando esta via de reflexão, é que se propõe traçar algumas correlações entre a visão gestáltica do ciclo de contato e os estágios pelos quais os pacientes passam, a partir do estudo da autora anteriormente mencionada. Da mesma forma que Frederick Perls e seus demais seguidores reconhecem este ciclo de contato, ou curva organísmica como um dos pontos-chave da teoria e abordagem gestáltica, Elisabeth Klüber-Ross, por outro lado, também propõe uma outra configuração para compreender as experiências dos pacientes, após a notícia de uma grave enfermidade. Na verdade, não há a intenção de se aprofundar ou realizar uma comparação inteiramente fundamentada deste assunto. Mas, em contrapartida, ressaltar certos aspectos, ilustrando-os com casos clínicos atendidos na instituição hospitalar na qual trabalhei, será um interessante percurso!

Tanto as necessidades fisiológicas quanto as psicológicas rondam e perfazem quaisquer experiências do ser humano, num processo de homeostase. Este processo homeostático se caracteriza por um "jogo contínuo de estabilidade e desequilíbrio no organismo" (PERLS, 1988, p.20), almejando um estado de satisfação. Entretanto, para atingi-lo, não há como pensar no indivíduo isoladamente, mas sim, em constante relação com seu ambiente. É daí que surge o próprio conceito de ajustamento criativo onde, a partir deste relacionamento organismo-meio, "... a pessoa entra em contato responsavelmente, reconhece e conduz (de maneira bem sucedida) a sua vida e toma a responsabilidade para criar condições vantajosas para o seu próprio bem-estar" (YONTEF, s/d, p.40-41). É importante realçar também que a pessoa pode se ajustar porém, dentro de uma conformidade com padrões externos e isto invalida a noção de criatividade, segundo a teoria da Gestalt-Terapia.

Contudo, quando estas formas de contato entre o indivíduo e seu meio são interrompidas e perdem a capacidade de transformar a situação em busca de satisfação, diz-se que este ciclo apresenta bloqueios em sua dinâmica. O grande desafio do trabalho gestáltico é justamente identificar onde e como estes estão acontecendo, a fim de resgatar um "diálogo com nossos problemas, reintegrando-os para iniciar um processo de cura" (HYCNER, 1995, p.139).

Klüber-Ross identifica a negação e o isolamento como a primeira reação do indivíduo à sua enfermidade. Para esta autora, "a necessidade de negação vai e volta, e o ouvinte sensível, perspicaz, ao notar isso, deixa que o paciente faça uso de suas defesas..." (1996, p.54). Refletindo gestalticamente, a negação pode, num primeiro momento, ser produtiva, na medida em que permite ao paciente retrair e proteger-se na fronteira de contato, contra a dor e a angústia iniciais. Observa-se que, mesmo na retração, há um acúmulo de energia armazenada que, posteriormente poderá ser utilizada como uma via de ação e conscientização do adoecimento.

A raiva é o segundo estágio apontado por Elizabeth; ela constata: "o pior é que talvez não analisemos o motivo da raiva do paciente; nós a assumimos em termos pessoais quando, na sua origem, nada ou pouco tem a ver com as pessoas em quem é descarregada" (idem, 1996, p.65). As falas recheadas de raiva, muitas vezes vêm carregadas de sentimentos de inconformismo e fracasso: "por que isto aconteceu comigo?"; "como pode um dia de sol se transformar neste dia de tempestade assim?" (SIC).

De acordo com a concepção gestáltica, a raiva é um sentimento muito profícuo, a partir do instante em que se pode dar vazão a ele. A raiva também mobiliza uma tomada de atitude e bloqueá-la é tornar algo indigesto, impedido de ser processado sensorial e afetivamente.
É evidente como estas sensações não ficam confinadas exclusivamente aos pensamentos dos pacientes. Muito pelo contrário, elas brotam de todo o corpo, em cada gesto, em cada suspiro, em cada experiência. E, na grande maioria dos casos, há uma luta desenfreada para controlar a difícil situação, onde as trocas entre fronteiras vão ganhando uma conotação vitimizada e camuflada por promessas de seguir o tratamento corretamente, tomar a medicação prescrita por exemplo, compreendendo a barganha, enfocada por Elisabeth que, nada mais é do que "uma tentativa de adiamento" (idem, ibidem, p.97). Um episódio clarificador deste momento ocorreu com um garoto de doze anos que, após uma série de quimioterapia e de seis meses ininterruptos de internação, dizia: "prometo que volto para o hospital; só
quero passar uns dias em casa" (SIC).

Este fato, se olhado do ponto de vista saudável, revela um pedido de resgatar "as próprias coisas"; de se sentir singular, possuidor de uma história que extrapola a realidade hospitalar. Neste sentido, percebe-se uma mobilização de energia que prima por satisfazer uma necessidade emergente.

Neste caso, em especial, a equipe de saúde chegou a um acordo, permitindo que o paciente ficasse em casa por uma semana, retornando então para outra série do tratamento. A vitalidade e a disponibilidade após o retorno foram cruciais ao bom prognóstico deste garoto. De um tumor no centro do cérebro, tendo seus dias de vida "contados", hoje, este paciente experimenta o gosto pela vida! Prosseguindo com estas comparações ilustrativo-teóricas, o estágio seguinte seria o da depressão, no qual a autora distingue a depressão reativa (mediante os limites trazidos pelo adoecer), e a depressão preparatória (KLÜBER-ROSS, 1996), onde na linguagem da Gestalt, seria vista como um momento de intensa retração na fronteira e forte introspecção.

Fazendo uma analogia com a curva de contato, este momento pode configurar uma verdadeira percepção e conscientização do processo de adoecimento, uma vez que o paciente se dispuser a identificar e entrar em contato com a figura dominante. Por fim, o último estágio é o da aceitação. Pode-se considerar que esta aceitação é uma experiência de "awareness"ampliada, na medida em que experienciando medos, dúvidas e impasses, chega a hora de agir e contatar os recursos próprios diante do adoecimento. Existem três ilustrações bastante oportunas e interessantes para serem realçadas. A primeira é de uma senhora que teve de amputar o pé esquerdo em virtude de complicações decorrentes da diabetes. Ao se permitir passar pela decepção, pela sensação de perda de uma parte de seu corpo, ela se torna capaz de enfrentar os medos e as expectativas diante da adaptação ao novo estilo de vida.

Um outro caso aponta que o trabalho gestáltico também viabiliza a "awareness corporal", numa tal integração, que palavras e sentimentos podem se fazer compreensíveis pela via dos gestos e movimentos. O exemplo é o de um senhor que sofrera um acidente vascular cerebral, ficando tetraplégico e sendo também traqueostomizado. Por isto, o contato expressivo era importantíssimo, principalmente pelo olhar e movimentos faciais, onde alegria, insatisfação e desconforto eram expressos.

À medida que este paciente ia ampliando seu campo de contato, sua força de vontade foi tão enriquecedora que, na alta hospitalar, ele já conseguia mover as mãos e um pouco dos braços, saindo satisfeito com a melhora. Na verdade, ele "usou" seu processo de adoecimento como um aprendizado para um novo tipo de comunicação, mobilizando-se e empreendendo significativas mudanças.

Enfim, a meta a que se deseja atingir é justamente mostrar que, separadamente, o que é saudável e o que é doente podem guardar prejuízos e benefícios ao ajustamento criativo do indivíduo, na medida em que ficarem ou não cristalizados numa só polaridade, respectivamente. Entretanto, ao serem olhados como uma totalidade, a nível processual e dinâmico, podem ampliar a gama de facilidades perceptivo-sensoriais do indivíduo, favorecendo uma melhor qualidade do diálogo entre ele e seu mundo, numa constante busca de auto-regulação organísmica.

Conclusão

A partir de toda esta produção, embasada na literatura teórica e na prática hospitalar, conclui-se que há muito o que se fazer para facilitar um diferente experimentar do processo de adoecimento. A Gestalt-Terapia, fundamentada na relação entre paciente e terapeuta, abre possibilidades para "cuidar" e resignificar o estado do adoecer. Isto quer dizer que é viável favorecer um transitar do paciente pelos "nós" deste processo e pelo encontro com suas potencialidades, a fim de desatá-los. Para isto, a proposta gestáltica é a de incentivar o auto-suporte, no sentido de que cada paciente se responsabilize e escolha o que quer fazer ao se perceber "adoecido". É interessante apontar que, principalmente em instituições hospitalares, os próprios terapeutas se questionam sobre: "como é 'encontrar' alguém que não vai ao teu encontro?"

Remetendo às minhas experiências com pacientes hospitalizados, a questão que se ressalta é: mas o que podemos "encontrar" naquele e com aquele que não vem ao nosso encontro? Ou, o que podemos fazer junto àquele que, inicialmente, nos dá a impressão de estar des-encontrado e des-encantado de si, do mundo e de suas escolhas?

Assim, tomando a noção heideggeriana de liberdade, que implica em ter à frente infinitas possibilidades, cabe ao gestalt-terapeuta, em especial, o desafio de estar junto com o paciente, propiciando-o dar forma ao "sopro de vida" do homem (que significa "alma" em hebraico), existente em cada um.

Este "sopro" pode ser comparado ao aspecto saudável do adoecer, capaz de ser descoberto na medida em que o indivíduo puder vivenciar suas emoções polares em meio a este processo. Enfim, estar disponível a traçar um caminho, a ser presença no diálogo relacional, iluminando e sendo iluminado pelo encontro inter-humano é a grande tarefa e o grande presente da terapia gestáltica. Nada de
facilidades; porém, extremo empenho e criatividade, numa construção artesanal, onde paciente e terapeuta tecem um caminho possível, fazendo do adoecer uma experiência transformadora.

(Trabalho apresentado no VII Encontro Nacional de Gestalt Terapia - IV Congresso Nacional da Abordagem Gestáltica - De 8 a 12 de outubro de 1999 - Goiânia-GO - Publicado na Revista: Abordagem Gestáltica - Ecologia Humana e o III Milênio em CD.

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